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Estamos formando leitores autônomos?

Lucília Coimbra

É necessário oferecer aos jovens subsídios para, com base na construção e na participação efetiva, contribuir com a sua transformação em produtores de significados, capazes de lidar com os diferentes gêneros textuais - lingüísticos e não-lingüísticos - na escola e na sociedade em que vivem.

Muito se tem falado sobre o desinteresse dos alunos pela boa leitura. Mas de que leitura se trata? De textos impressos? Quem pode determinar o que é uma boa ou má leitura sem levar em consideração o universo dos educandos? Essas reflexões são pertinentes em um momento no qual as possibilidades de leitura multiplicam-se com uma velocidade impensável há poucas décadas.

É bem simples afirmar que os alunos não lêem quando há sempre alguém determinando o que eles devem ler. Nesse caso, não escolhem os livros e, muitas vezes, lêem sem envolvimento, apenas por obrigação. Onde está a autonomia do leitor? Seu campo de interesse é levado em conta? Em salas de aula, é comum utilizar como principais instrumentos de leitura apenas o livro didático e suas variações (módulo, apostila, reproduções xerográficas) ou livros escolhidos pelos professores. Assim, a participação do aluno é totalmente anulada.

Sabe-se que muitas escolas, normalmente, privilegiam o texto escrito, automatizando-o, sem considerar outras possibilidades de leitura que contribuam para uma melhor ampliação do universo cultural do educando. E isso é possível através da leitura analítica das diversas formas de expressão, também consideradas linguagens em um sentido amplo, tais como a pintura, a escultura, o cinema, a música, o teatro, etc.

No que se refere à tipologia textual representada no material didático, ainda encontramos situações que se distanciam da realidade do aluno. Ora, se o educando não for preparado para compreender as formas de linguagem que o rodeiam e se os textos escritos não apresentam nenhuma ligação com o seu cotidiano ou não forem do seu interesse, possivelmente a leitura não terá a funcionalidade que dela se espera.

Em certos livros didáticos, notamos a presença de textos que não despertam o interesse do aluno para a leitura nem propõem uma intervenção do leitor. Textos dessa natureza, geralmente, são utilizados como pretextos para outras atividades, tais como abordagem gramatical, ensino da ortografia para apropriação do sistema de escrita e conhecimento do vocabulário. Esse fim utilitário descarta todas as possibilidades de análise que uma leitura apropriada pode oferecer e não provoca no educando o interesse pelo ato de ler.

Espera-se que o aluno desperte para o prazer da leitura, que se transforme em leitor atento, que tenha capacidade de abstração e de interpretação, que adquira autonomia. Expectativas que, na maioria das vezes, não condizem com as práticas empregadas pela escola, a exemplo da utilização constante de textos fragmentados e/ou inadequados, principalmente no material didático. Trata-se de um fator relevante, já que pedaços de textos não contêm todas as intenções do autor para o leitor, de maneira que este perceba o implícito, as idéias subjacentes que exijam dele intervenções na recepção textual. Desse modo, a leitura não contribui para a formação do leitor.

Outro fator importante: a escola não deve desconsiderar que o envolvimento com a leitura varia de aluno para aluno, o que impossibilita o nivelamento dos leitores. Além disso, determinadas práticas de implantação da leitura no espaço escolar não funcionam. A lista de livros preparada pela escola não incentiva a leitura, pois não considera o interesse do aluno e o prazer que a escolha de um livro pode proporcionar. Muitas vezes, as obras selecionadas à revelia do leitor têm foco na avaliação escrita ao final de cada período pedagógico. É assim que se estabelece a distância entre o aluno e a biblioteca. Por que visitar uma biblioteca se já existe uma lista de livros determinando o que deve ser lido?

A formação de um leitor passa por um processo e não se deve considerar a leitura apenas a decodificação de sinais gráficos. Ela vai muito além: possibilita intervenções, questionamentos, inferências e hipóteses. No caso da educação de jovens, torna-se necessário oferecer-lhes subsídios, com base na construção e na participação efetiva, que contribuam para a sua transformação em produtores de significados, capazes de lidar com os diferentes gêneros textuais - lingüísticos e não-lingüísticos - na escola e na sociedade em que vivem. Se a leitura for conduzida mecanicamente ou considerada como atividade secundária, isso provocará no aluno dificuldades em abstrair idéias e realizar análises críticas que culminem em ações transformadoras.

No âmbito educativo, a leitura é atividade precípua no processo de ensino-aprendizagem, pois permite ao educando elaborar seu mundo de referências, formar opiniões e fazer intervenções. Tais possibilidades aguçam-lhe uma percepção mais consciente do que está ao seu redor, como também da interpenetração entre os vários horizontes - cultura, história e ciência -, o que faz da leitura um passaporte para a aquisição de experiências significativas ao indivíduo e ao grupo social a que pertence.

Pensar os problemas da leitura na escola deve ser uma preocupação constante não só das instituições de ensino, mas de toda a sociedade para que o seu desenvolvimento cultural e socioeconômico não seja comprometido pela defasagem escolar de seus habitantes. Acreditamos que o redimensionamento das atividades de leitura é de grande importância quando se considera o contexto social do educando e sua competência para interagir com ele. A criação e a implementação de projetos com foco nas relações entre os diversos tipos de textos e de linguagens, integrando-os à vida prática do aluno, constituem um passo decisivo para promover mudanças e permitir que a leitura contribua para o desenvolvimento das habilidades lingüísticas dos indivíduos em situação escolar, de modo que eles possam aplicá-las na vida em sociedade.

Sugestões de atividades práticas com jornal

Público-alvo:


Alunos de 5ª a 8ª séries (pode ser adaptado para alunos de 1ª a 4ª séries).

Objetivos:


  • promover a leitura e a socialização de textos diversificados;

  • operar com linguagens distintas;

  • permitir a troca de experiências entre os alunos através do debate;

  • desenvolver a compreensão dos textos lidos, buscando significados para os mesmos;

  • possibilitar a construção e a reconstrução de significados;

  • utilizar a leitura como forma de aprendizagem e análise das questões atuais;

  • fomentar o exercício lingüístico por meio da oralidade;

  • provocar o interesse pelas mais diversas situações pelas quais passa a sociedade contemporânea.


  • Justificativa:
    Promover o redimensionamento das atividades de leitura, considerando a realidade cotidiana do educando e suas competências de construir conhecimento.

    Eixos temáticos:
    Fica a critério do professor observar os temas que estão implícitos nos textos selecionados para realizar as intervenções que se fizerem necessárias.

    Atividade 1 - Leitura de texto e expressão oral

    Orientações didáticas para os alunos:
    a) Em grupo: seleção e leitura de textos jornalísticos.
    b) Discussão do problema apresentado na reportagem.
    c) Registro dos pontos considerados relevantes pelo grupo.
    d) Elaboração de um posicionamento acerca do problema evidenciado na notícia.
    e) Socialização da experiência para todos os grupos e exposição da opinião sobre o assunto abordado.

    Observação: no decorrer da apresentação, o professor e os demais alunos devem interagir com cada grupo que expõe o seu trabalho.

    Atividade 2 - Leitura de imagem, expressão oral e escrita
    Antes de iniciar a atividade, o professor deve recortar imagens (fotografias, ilustrações, gravuras, etc.) publicadas em jornais, retirando as legendas. O aluno pode realizar o trabalho individualmente, em dupla ou em equipe.

    Orientações didáticas para os alunos:
    a) Seleção e leitura de uma das imagens distribuídas pelo professor.
    b) Registro das primeiras impressões sobre a cena observada.
    c) Socialização das percepções de cada leitor.
    d) Elaboração de um pequeno texto ficcional baseado na imagem analisada.
    e) Exposição oral da produção escrita.
    f) Colagem em cartaz do texto e da imagem.

    Lucília Coimbra é especialista em Estudos Lingüísticos e Literários pela UFBa, professora de Educação de Jovens e Adultos da rede estadual de ensino da Bahia e do Núcleo de Educação do Trabalhador da Indústria do SESI DR-BA, além de mediadora em treinamento de professores.
    E-mail: luciliacoimbra@uol.com.br

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