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Homenagem a Bourdieu

Por que prestar homenagem a Bourdieu no Fórum Mundial da Educação, sobretudo neste momento especial que é a sessão inaugural? Pelo fato de Bourdieu ter sido um companheiro de lutas, notadamente contra a globalização neoliberal, e, para muitos dentre nós, um companheiro de pensamento. Também por Bourdieu ser o sociólogo que teve maior influência no debate social contemporâneo, não só na França, mas também em outros países, especialmente no Brasil. Mas existe ainda outro motivo: Bourdieu tornou-se um símbolo, símbolo este que faz sentido particularmente aqui, hoje. Ele é um símbolo pertinente para nós porque deu uma grande importância ao esforço intelectual para esclarecer o funciamento da sociedade e, ao mesmo tempo, engajou-se nas lutas sociais. É um símbolo pertinente para nós porque inscreveu-se na tradição intelectual de seu país, a França, e ao mesmo tempo sempre ficou aberto ao mundo. É igualmente um símbolo pertinente para nós porque era muito exigente, do ponto de vista intelectual e social, bem como em relação aos inúmeros textos que escreveu, e ao mesmo tempo sempre esteve ao lado dos mais fracos. Enfim, é um símbolo pertinente para nós porque seguiu pistas novas, como estamos tentando fazer, e ao mesmo tempo defrontou-se com contradições, inclusive as suas próprias contradições, assim como devemos defrontar-nos com as nossas.

Podemos encontrar na obra de Bourdieu uma ajuda para nossas reflexões no Fórum e em nossas lutas. O que nos ensinou Bourdieu? A força de sua sociologia está na idéia de que a sociedade age sobre nós do interior, e não apenas pela sua pressão externa. Achamos que estamos livres, que pensamos e fazemos o que queremos, mas Bourdieu sustentou que, de fato, nossas representações e práticas são socialmente construídas. Pensamos e fazemos segundo as nossas disposições psíquicas, mas de onde elas vêm? Foram socialmente construídas. Sendo assim, pensamos que estamos livres, porém, na verdade, é a nossa posição na estrutura social que determina as nossas representações e práticas. É o que Bourdieu chama de habitus: um conjunto de disposições psíquicas que foram socialmente construídas.

Esta é uma idéia muito importante para nós. Quem está pensando em nossa mente quando estamos pensando? Cuidado, ensinou-nos Bourdieu! Quando estamos lutando contra a dominação, sempre ficamos expostos ao risco de usar as idéias e as palavras do adversário, cuja dominação é também simbólica. Sendo assim, cada um de nós deve entrega-se a um trabalho permanente de luta ideológica contra ele mesmo. Na minha opinião, é nessa luta que o pesquisador e o militante podem juntar-se.

Todavia, quem está acompanhando o pensamento de Bourdieu sem ser um seguidor dele depara-se com uma dificuldade. Ao mostrar a força da dominação simbólica, ao mostrar que ela é inscrita no mais íntimo de nós mesmos, Bourdieu deixa-nos frente a uma grande dificuldade: será que somos impotentes perante essa dominação? Como podemos nos livrar dela? A sociedade nos fez, é certo; porém, como dizia Sartre, o que fazemos com o que a sociedade fez conosco? Somos construídos pela sociedade, mas também somos sujeitos, com desejos, inconsciente, sonhos, paixões. Como se pode pensar esse sujeito social? Como se pode pensar essa sociedade que não funcionaria sem o engajamento dos sujeitos? Essa questão não é a de Bourdieu - ele era sociólogo e sempre quis deixar a categoria de 'sujeito' fora da esfera da sociologia. Contudo, esta é a questão que vários pesquisadores estão investigando hoje em dia, depois de Bourdieu, graças a Bourdieu e em parte contra Bourdieu.

Bourdieu respondeu a ela, antes de mais nada, pelo seu engajamento social e político. Nos últimos dez anos, tem participado das grandes lutas sociais na França, notadamente contra a globalização. Na tradição de Sartre, Foucault e alguns outros, ele foi a bandeira que permitiu às mídias e à opinião pública conhecer a opinião dos intelectuais de esquerda. Aceitamos ser assim representados por ele, inclusive quando não concordávamos com todas as suas idéias teóricas, pois nas lutas ele sempre escolhia o que nós consideramos como o lado da justiça. Através de seu engajamento social, ele dizia o que não falava diretamente a sua teoria, algo importantíssimo para nós aqui no Fórum. Ele dizia que o homem, por mais dominado que esteja, inclusive pela dominação simbólica, nunca é um objeto, pois sempre pode recusar, dizer 'não aceito isso', entrar em lutas. Foi uma aposta de Bourdieu, a aposta na luta, a aposta na solidariedade, a aposta na educação. Uma aposta que fez também esta outra grande figura intelectual e social que se chamava Paulo Freire. Nessa aposta, existe a convicção de que a participação das lutas sociais também produz efeitos de liberação intelectual e inversamente. Essa convicção, essa aposta são também nossas aqui no Fórum.

Para terminar, não os convidarei a ficar em silêncio durante um minuto, como se faz na tradição das homenagens. Eu os convidarei a falar e a trocar idéias e experiências durante estes três dias do Fórum. Pois não é o silêncio que presta homenagem a um homem como foi Bourdieu: é pensar e falar o que ele nos ajudou a pensar e falar.

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