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Algumas considerações sobre o ensino fundamental de nove anos

Elvira Souza Lima

O ensino escolar da criança de 6 anos deve ser criado em função das características do desenvolvimento deste período da infância, não pode ser feito pela antecipação do ensino da criança mais velha, de 7 anos completos ou mais

Estender a obrigatoriedade do período de escolarização da educação fundamental para nove anos é uma tendência universal que se verifica, principalmente, após a Segunda Grande Guerra e hoje é uma realidade na maior parte dos países. Em realidade, o Brasil chega tardiamente a esta obrigatoriedade. Igualmente, a inclusão da criança com seis anos completos na educação fundamental é bastante comum na educação mundial.

Vários argumentos pró e contra esta inclusão têm sido levantados, e grande parte deles discute a questão a partir da perspectiva das aprendizagens escolares e do desenvolvimento da criança centralizados mais na capacidade cognitiva.

O aumento da escolaridade das crianças e jovens é uma necessidade da organização contemporânea, principalmente da vida em zonas urbanas. Em si mesma, não é uma providência prejudicial, mas pode vir a ser. Tenho alguns pontos a considerar a respeito. Primeiramente, a ótica pela qual se discute este aumento: a infância não é do domínio estrito da psicologia ou da pedagogia, ela também é objeto de estudo de outras áreas de conhecimento com grande relevância, como a antropologia, a neurociência e as artes.

A infância é um período de desenvolvimento cultural do ser humano, cuja importância vai ficando cada vez mais clara e precisa à medida que avançam os conhecimentos sobre o desenvolvimento do cérebro. As descobertas nesta área já são tão importantes que chegam a afetar a natureza de currículos da educação infantil em alguns países. É o caso, por exemplo, da França, que introduziu um currículo para a infância apoiado em pilares diferenciados dos que nortearam a educação da infância durante a maior parte do século XX. Neste novo currículo, as práticas culturais da infância ganham relevo e o tempo é distribuído de forma que atividades que envolvam música e movimento são equiparadas em importância às atividades mais especificamente voltadas para a apropriação da leitura e a escrita.

Busca-se, assim, uma escolarização que vise à formação do aluno como ser de cultura em desenvolvimento. Para tanto, é importante conhecer e respeitar os tempos do desenvolvimento da criança. Quem é esta criança?

A criança que completou seis anos está no seu sétimo ano de vida. Este período do desenvolvimento é marcado por mudanças biológicas, como, por exemplo, nas estruturas do cérebro ligadas à atenção. Paulatinamente, a criança neste período vai se tornando mais apta a seguir instruções para a realização de tarefas complexas, como as exigidas no processo de escolarização, e a prever conseqüências de suas tomadas de decisão e das ações que realiza. Porém, estas são coisas que acontecem ao longo do tempo, e a criança de 6 anos não está totalmente aparelhada para realizar determinadas coisas que são exigidas pela cultura da escola fundamental só porque completou 6 anos de idade.

A criança de 6 anos está em processo de desenvolvimento da função simbólica. Neste período, são muito importantes as atividades que envolvam símbolos e significados, como desenhar, brincar de faz de conta, realizar brincadeiras infantis que envolvam personagens e ações imitativas, cantar, ouvir histórias, poesias e narrativas da cultura local. É muito importante a vivência das práticas culturais de sua comunidade, de sua região, pois a elas estão ligadas à percepção de si mesma como membro de um grupo e à formação da identidade.



Desenvolver a percepção também é bastante importante,. A memória infantil neste período está muito ligada à percepção, portanto as ações pedagógicas precisam estar adequadas a esta condição do desenvolvimento infantil. As atividades próprias deste período devem ser utilizadas no planejamento pedagógico, como, por exemplo, usar o desenho como registro do que a criança observa e usar o movimento em várias situações.

Como este é um período importante do desenvolvimento da imaginação, a escola pode oferecer situações que ampliem o acervo de imagens e narrativas presentes na memória infantil. Histórias, obras de arte, desenhos, músicas, dramatizações, instrumentos musicais, brincadeiras e festas populares e contato com a natureza oferecem muitas possibilidades para este enriquecimento da imaginação.

O ensino escolar da criança de 6 anos deve ser criado em função das características do desenvolvimento deste período da infância, não pode ser feito pela antecipação do ensino geralmente planejado para a criança mais velha, de 7 anos completos ou mais. O mesmo se aplica à avaliação. A inclusão de crianças de 6 anos no ensino fundamental coloca o desafio de formular procedimentos de avaliação que contemplem o tempo, os processos de pensamento e a organização da ação verificados neste período.

Sei, pela prática de redes de ensino que já incluem a criança em seu sétimo ano de vida (6 anos completos até fevereiro do ano letivo), que a inclusão das crianças de seis anos coloca a necessidade de desenvolver uma pedagogia (tanto ensino como avaliação) que atenda às especificidades do período de desenvolvimento. Não se trata simplesmente de uma adaptação, mas de criação mesmo de uma pedagogia para a infância.

Não se pode pensar que um ano de educação infantil será deslocado para o ensino fundamental, pois a cultura da escola de educação infantil não é a mesma da escola de ensino fundamental. Conseqüentemente, há que se promover algumas mudanças na própria concepção de ensino fundamental, nos eixo adotados de organização de tempo e espaço, no entendimento do que seja um contexto adequado para a formação humana no tempo escolar.

Elvira Souza Lima é antropóloga, psicóloga e consultora internacional de educação.
E-mail: limaeducacao@yahoo.com.br

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