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Um novo foco para a educação ambiental

Tereza Cristina Rodrigues

A escola incorporou a Pedagogia dos 3Rs, que prevê as ações de reduzir, reutilizar e reciclar o lixo, mas é preciso rever a ênfase apenas na reciclagem Destaques A coleta seletiva tornou-se uma das atividades mais praticadas nos projetos de educação ambiental É necessário verificar a relação custo/benefício da reutilização A mídia transformou felicidade em capacidade de consumir

A questão ambiental, que em décadas passadas era timidamente discutida nos círculos acadêmicos, tomou vulto na sociedade contemporânea, sendo assunto presente em jornais, revistas, televisão e demais meios de comunicação. A escola foi conclamada a discutir o tema, a praticar educação ambiental. Aqui no Brasil, além de estar prevista na Lei nº 9.795/99, a educação ambiental é um dos temas transversais propostos nos Parâmetros Curriculares Nacionais.
Muitas escolas optaram por trabalhar a educação ambiental em forma de projetos. Dos vários assuntos que são elencados, a questão do lixo desponta como tema dos mais privilegiados, haja vista a urgência de se promover gerenciamento dos resíduos sólidos, sobretudo nas grandes cidades, em que este se coloca como sério problema administrativo. Assim, considerando o gerenciamento dos resíduos sólidos, a escola incorporou a Pedagogia dos 3Rs, que prevê as ações de reduzir, reutilizar e reciclar o lixo.
Apesar de os dois primeiros Rs propostos pelo programa serem os que tratam de reduzir a quantidade de lixo produzida e reutilizar materiais antes de descartá-los, verificamos que muitas escolas reduziram a idéia ao R da reciclagem. Por isso, a coleta seletiva tornou-se uma das atividades mais praticadas nos projetos de educação ambiental. Realiza-se a coleta seletiva, principalmente de latas de alumínio, garrafas plásticas (PET) e papel, e os produtos são vendidos com o objetivo de angariar verbas para suprir as carências das escolas.
É lícita a instalação da coleta seletiva e reciclagem, desde que o projeto não fique limitado a tais ações. O primeiro R proposto é o da redução da quantidade de lixo produzida e ele se choca com o consumismo, um dos pilares da sociedade moderna. Consumir menos e de modo consciente são ações contrárias ao modelo de sociedade capitalista que temos. Então, quando a proposta é trabalhar a Pedagogia dos 3Rs, devemos descortinar a relação existente entre modelo de sociedade e consumismo. É importante mostrar aos nossos educandos que boa parte das nossas necessidades não são reais; elas são fabricadas pela mídia para que se consuma cada vez mais. É urgente trabalhar com eles a noção da obsolescência planejada que leva as empresas a reduzir, cada vez mais, o tempo de vida útil dos produtos que compramos para que novos produtos sejam consumidos. É interessante observarmos esse rápido sucateamento dos produtos, especialmente quando se trata de materiais eletrônicos e computadores.
Outro aspecto a ser considerado é que a coleta seletiva aparece como solução para o sério problema dos descartáveis. Nesse sentido, o indivíduo consome produtos descartáveis sem a preocupação com a imensa quantidade de lixo gerada, pois este será destinado à coleta seletiva e reciclado. Isso sem falar que os descartáveis ainda passam a ser encarados como "matéria-prima" para os catadores. Portanto, ao consumir descartáveis, estaremos ajudando a equacionar o desemprego, já que produzimos material de trabalho para o desempregado que pode tornar-se catador. Nessa ótica, inverte-se a questão do lixo: de problema ambiental passa a ser encarado como solução para problema social.
Considerando, portanto, o forte apelo consumista de nossa sociedade, é importante ressignificarmos a palavra felicidade, pois a mídia transformou felicidade em capacidade de consumir. É mais feliz quem consome mais, quem tem o produto mais moderno. Os Parâmetros Curriculares Nacionais discorrem sobre esse conceito de felicidade produzido pela sociedade de consumo:
Sabe-se que o maior bem-estar das pessoas não é diretamente proporcional à maior quantidade de bens consumidos. Entretanto, o atual modelo econômico estimula um consumo crescente e irresponsável, condenando a vida na Terra a uma rápida destruição. Impõe-se, assim, a necessidade de estabelecer um limite a esse consumo (PCN, 1998, p. 177). Há ainda o risco de se encarar a coleta seletiva como negócio produtivo no âmbito da visão mercadológica. A escola, ao promover coleta seletiva, maximiza a venda do lixo como algo economicamente lucrativo, ficando a questão ambiental como algo secundário.
O segundo R enfatiza a importância do reutilizar  o que antes era vidro de maionese pode vir a ser pote para acondicionar temperos. As embalagens de refrigerante, quando de vidro, são retornáveis, podendo ser reutilizadas várias vezes. Cabe, no entanto, ressalvas em relação à questão do reutilizar. Um exemplo é a vassoura "ecológica", confeccionada com garrafas PET. Quando a varrição inicia, o atrito do plástico com o solo quebra-o em micropartículas que, ao cair na cadeia alimentar, podem provocar danos à fauna e à flora. Portanto, é necessário verificar a relação custo/benefício da reutilização. A garrafa PET é uma poluição visível. Já as micropartículas resultantes do seu atrito com o solo, ao se tornar vassoura "ecológica", são muito mais perniciosas ao meio ambiente.
Logo, se militamos por uma educação progressista, é preciso reverter o reducionismo imposto à Pedagogia dos 3Rs. Para tanto, devemos maximizar os dois primeiros Rs (reduzir e reutilizar). É igualmente necessário abordar o gerenciamento dos resíduos sólidos em toda a sua complexidade, problematizando a relação da produção do lixo com a sociedade de consumo, discutindo a interface lixo/saúde pública e tantas outras conexões pertinentes ao tema.

REFERÊNCIAS

REFERÊNCIA



BRASIL. Ministério da educação e do desporto. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais: temas transversais. Brasília, 1998.



Tereza Cristina Rodrigues é bióloga, pedagoga, mestre em Educação e professora de Ciências e Biologia.

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