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Educação digital na era das redes

Paulo da Silva Quadros

A rede representa em si uma grande metáfora da vida. A internet nada mais é do que a nossa tentativa de imitar e transcender os limites impostos pela nossa mente e pelo nosso corpo. É um modo de ampliarmos cada vez mais nossos sentidos, articulando tudo o que produzimos e conhecemos.

São inegáveis as transformações pelas quais todos estamos passando em nossa sociedade, em grande medida devido aos benefícios do uso da tecnologia no cotidiano. Naturalmente, tais transformações requerem uma percepção mais aguçada por parte de nós, educadores, de como elas operam em nossas vidas, impregnando-as de novos referenciais interpretativos da realidade. Ou seja, como a tecnologia muda completamente a concepção dos nossos valores educacionais, que devem estar mais sintonizados com a cultura da tecnologia digital?
Nesse aspecto, devemos entender que o digital diz respeito não apenas a uma tecnologia modificada ou a um mero processo evolutivo decorrente. Ele deve ser encarado também como um campo frutífero para a construção de novos saberes com fundo pedagógico, pois o digital é uma fonte inesgotável para se compreender e interpretar a natureza e a cultura humana.
O digital tornou possível um sentido maior de visibilidade das coisas cotidianas. Ele reelaborou as formas de veiculação das informações, trazendo novas possibilidades de formatos de conteúdos e abordagens interpretativas decorrentes. Desse modo, multiplicaram-se nossos referenciais de acesso ao mundo do conhecimento. Hoje se tem rápido acesso, às vezes até em tempo real, ao que antes demandava muito tempo para se saber.
E não é só isso. A tecnologia digital proporciona diversos recursos multimidiáticos e hipertextuais de apreensão informacional. Várias fotos podem ser disponibilizadas via internet, mostrando diversos ângulos de visão ou uma seqüência de momentos e estados diferentes. Além disso, o indivíduo pode ora ampliar, ora diminuir o escopo. Com isso, ele tem tanto uma visão geral, de conjunto, quanto uma visão das partes contidas em detalhes.
Em alguns casos, existe ainda a possibilidade de alterar cores. E, como se não bastasse, há por vezes outras informações mais especializadas, contendo detalhes bastante específicos do acontecimento. Isso pode também ser acrescido de depoimentos de testemunhas e pontos de vista de peritos no assunto. Além de, em muitos casos, serem levantados uma série de indícios, fazendo-se uma reconstrução histórica de elementos que culminaram para o acontecimento noticiado.
Na verdade, podemos dizer que os dispositivos da tecnologia digital retrabalham os nossos sentidos de apreensão do mundo exterior ao nosso corpo. Em outras palavras, eles funcionam como verdadeiras próteses de nosso corpo e de nossa mente, ampliando a nossa capacidade de ver, ouvir, tocar, sentir e pensar.
Todas as tecnologias são em si próteses, ou seja, artefatos criados pelo homem com base em elementos biológicos que ele conhece e quer dominar. De certa forma, o homem criou todos os seus artefatos e tecnologias imitando os elementos da natureza. O que é o microscópio, por exemplo, senão uma prótese do olho humano, ampliando nossa capacidade de ver o infinitamente pequeno? E o que é o telescópio, senão outra prótese do olho humano, só que construído para ampliar a nossa capacidade de ver o infinitamente grande?
Sendo assim, o homem inventa próteses ou artefatos tecnológicos justamente para compensar suas diversas limitações. Tais limitações devem ser compreendidas de modo abrangente, tanto em termos físicos quanto psicológicos. O mundo da cultura humana é rodeado inteiramente de próteses. Como disse o filósofo alemão Goethe, "tudo são metáforas". Podemos entender essa frase ao verificar que tudo na cultura humana é metáfora de algo, pois é assim que as coisas são criadas o tempo todo.
As janelas dos sistemas operacionais dos computadores são artifícios que tentam, ao seu modo, imitar nossa referência cultural do que são as janelas em nossas vidas. Claro que não são janelas como as que conhecemos em nosso cotidiano. Na verdade, são mais simulacros, ou seja, imitações da nossa realidade, constituindo uma maneira de aproximar a tecnologia do cotidiano das pessoas. Os ícones computacionais também desempenham esse mesmo papel de simulacros. Fazem a sintonia entre texto e imagem para tornar mais clara a compreensão e a assimilação do objeto ou artefato informático.
Desse modo, a tecnologia digital nos faz compreender muitas coisas ao mesmo tempo. Por exemplo, como se produz a cultura humana, com seus processos de inúmeras intermediações conceituais. Por isso, se falamos hoje de uma cultura digital ou cibercultura, é com base em uma cultura que a antecede, que pode ser a nossa própria cultura cotidiana, mesmo sem a inserção da tecnologia digital. Uma cultura faz uso da outra, e assim se cria algo supostamente novo.
Portanto, a tecnologia digital faz com que lancemos um olhar interpretativo mais atento a todo o nosso universo cultural, já que o digital não é por si uma realidade completamente nova, mas uma realidade que mistura outras realidades já existentes, uma vez que amplia nossos campos de sentidos por meio da criação de novas próteses.
Na verdade, não devemos encarar a questão do novo apenas por conta da inserção dos meios digitais em nossas vidas, mas sim por meio da relação que desejamos ter com eles, a partir do entendimento de como eles ressignificam o mundo ao qual pertencemos. Esse novo tipo de relação com a tecnologia, com base no paradigma digital, demanda atitudes, habilidades e competências cognitivas que precisam ser repensadas no campo pedagógico.
Já o fenômeno das redes computacionais, por exemplo, torna-se muito mais instigante se compreendido à luz do processo de organização das redes sociais humanas e das redes biológicas em geral. Assim, é possível não só adentrarmos um novo modo de compreensão do mundo, com o qual enriquecemos nosso olhar cultural, como também percebermos um uso mais social das tecnologias digitais.
A rede representa em si uma grande metáfora da vida. A internet nada mais é do que a nossa tentativa de imitar e transcender os limites impostos pela nossa mente e pelo nosso corpo. É um modo de ampliarmos cada vez mais nossos sentidos, articulando tudo o que produzimos e conhecemos. Ela espelha a capacidade reprodutiva da vida e da cultura humana, que não pára de evoluir e de se transformar. Por isso, ela representa o imaginário do que vemos, de como vemos, do que somos, de como nos vemos e, finalmente, de como gostaríamos de ser e de nos ver uns aos outros.

Paulo da Silva Quadros é mestre em Ciências da Comunicação e doutorando em Educação na USP.
psquadro@usp.br

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