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A linguagem das mensagens de texto
Gabrielle Damasceno Ramos e Lucenilza Luana Silva Batista
As autoras analisam o novo gênero textual surgido a partir da tecnologia que permite o envio de "torpedos" entre telefones celulares
Nos últimos anos, temos nos deparado com uma "nova linguagem" ou uma nova variante do português que conjuga a escrita a sons, imagens, números, etc. - as mensagens de textos entre celulares. Pesquisa realizada por Jennifer Hord (2006) revela que a mensagem de texto é usada por 49% de donos de celulares. Atualmente, as pessoas parecem ter parado de falar. No momento em que finalmente íamos nos acostumar a ver todo mundo falando o tempo todo em telefones celulares, agora as pessoas ficam digitando nos teclados, usando os celulares para enviar mensagens, os torpedos. O SMS (sigla em inglês de serviço de mensagens curtas, basicamente um método de comunicação que envia texto entre telefones celulares) ou mensagem de texto trocou as conversas de telefone por uma nova geração de usuários denominada por Jennifer Hord de "torpedeiros".
A proposta deste artigo é descrever esse gênero do campo da tecnologia de comunicação que apresenta, assim como no domínio virtual (e-mail), a presença da linguagem oral, abreviações, ícones, entre outros elementos que a tornam uma linguagem rápida, com resposta imediata. Analisaremos as dimensões enumeradas por Maingueneau (2004), enfocando mais especificamente a organização textual do gênero, bem como o estatuto de parceiros legítimos (a relação entre locutor e interlocutor). Faremos isso através da análise de pequenas mensagens de textos via celular, com características distintas.
Caracterizando o gênero
As mensagens via celular podem ser definidas como um novo gênero advindo da tecnologia que facilita e agiliza a interação entre indivíduos. Elas conjugam diferentes elementos semióticos, como imagens (mensagem multimídia), sons (mensagem de voz) e escrita (mensagem de texto). Pretendemos analisar esse último aspecto, que, por sua vez, constitui-se de abreviações (vc, tb, q, c), ícones (emoticons) e supressões de fonemas (bjus, tard). Outra característica recorrente nesses enunciados é a falta de pontuação, que muitas vezes acaba dando-lhes outro significado, tornando-os ambíguos: "t encontru amanha um abraçu amarela". Nessa mensagem, amarela é o apelido do interlocutor. As marcas da oralidade também são visíveis: "t amu. vem pra ca". Assim como o uso de letras maiúsculas para enunciados que requerem destaque: "t AMU".
Marcuschi (2002) diz que esses novos gêneros não são inovações absolutas, sendo advindos de gêneros já existentes. No caso das mensagens de texto via celular, é possível compará-las ao bilhete, por serem mensagens de textos breves e enunciados curtos com identificação ou assinatura de quem escreve. A diferença entre ambos está no suporte material: enquanto o bilhete caracteriza-se como um manuscrito com quantidades de vocábulos indeterminados, que precisa ser levado ou deixado em local visível para o receptor; a mensagem de texto via celular tem como suporte material o painel digital do aparelho celular, que limita o número de caracteres. Além disso, o receptor recebe a mensagem de modo mais ou menos imediato.
Como lembra Jennifer Hord, quando um amigo envia um torpedo a você, a mensagem passa pelo centro de SMS, vai para a torre e a torre envia a mensagem ao seu telefone na forma de um pequeno pacote de dados no canal de controle. Da mesma forma, quando você envia uma mensagem, o seu telefone a envia para a torre no canal de controle, de onde ela segue para o centro de SMS e é redirecionada para o destinatário. Ao contrário de em um bilhete, no domínio virtual não há necessidade de assinatura: as funções tecnológicas do aparelho celular e da internet responsabilizam-se por isso.
As mensagens de texto via celular têm uma diversidade de locutores, devido à sua dinamicidade. Recebemos mensagens de operadoras que oferecem serviços e promoções, mensagens de desconhecidos e, principalmente, mensagens de pessoas próximas. Tomaremos como objeto de estudo as mensagens interpessoais, aquelas que recebemos de amigos, familiares, etc. Diante disso, podemos dizer que os locutores dessas mensagens são bastante diversificados, ou seja, são indivíduos de faixa etária, sexo e classe social diferentes, os quais usufruem os serviços de um aparelho celular. Já que atualmente possuir um aparelho celular não é mais privilégio de alguns, mas de uma massa diferenciada de indivíduos, graças às facilidades de compra e ao baixo custo, isso faz com que sejam também diversificados os interlocutores.
Os serviços do aparelho celular não podem ser usados em qualquer lugar, pois existem algumas restrições e algumas regras de etiqueta. Por exemplo, hospitais, automóveis, aeronaves e postos de gasolina são lugares indevidos, perigosos ou ilegais para tal uso, enquanto salas de aula, salas de palestra, cinemas, teatros e igrejas não são lugares recomendáveis para o uso do celular por questões de educação, sendo deselegante enviar mensagens ou até mesmo receber e realizar ligações.
Portanto, há indeterminações quanto aos lugares onde circula esse gênero, devendo ser adequados ao uso do aparelho celular. A temporalidade dessas mensagens de textos é imediata, pois o receptor, dependendo das condições do seu aparelho (ligado, desligado, fora da área de serviço), recebe-a em seguida à produção da mesma; porém, se analisarmos a duração de validade, aspecto citado por Maingueneau (2004), veremos que será por um determinado tempo, dependendo da tecnologia e da funcionalidade do aparelho, que a armazenará por algumas semanas ou enquanto a memória de status da caixa de mensagem não se esgotar, assim como mensagem poderá ser apagada imediatamente pelo receptor, razões pelas quais a validade dessas mensagens não pode ser presumida.
Organização textual
Nas mensagens de texto via celular, há uma diversidade de seqüências textuais, que se constituem de enunciados: descritivos, narrativos, injuntivos e, sobretudo, conversacionais. Elas apresentam enunciados religiosos ("t amu deus t abençoe"), amorosos ("tenho um baú chamado coração, dele transborda o único tesouro que possuo e que posso te oferecer, o meu AMOR!"), ditos populares ("quem v carro não v coração"), enunciados cômicos ("as vzes sinto vontad de t ligar e ouvir a tua voz! Mas vem uma voz do alem m dizendo... SALDO INSUFICIENTE"), enunciados afetivos ("no mundo existe 4 tipos de amizades >a grande >a media >a pekena>a mais important de todas A NOSSA"), entre outros.
Todo gênero do discurso apresenta uma organização textual. Reconhecer um gênero do discurso implica identificar como se estruturam seus enunciados. Em se tratando da mensagem de texto via celular, essa organização textual assemelha-se à de um bilhete, confirmando a idéia de Bakhtin (2003) sobre assimilação de um gênero por outro ou a transmutação, originando um novo gênero. O diálogo entre o gênero bilhete e o gênero mensagem via celular, na variante mensagem de texto, ocorre exatamente na semelhança de sua organização textual. Ambos apresentam textos breves, normalmente com sintaxes curtas, o que denota a praticidade de uso dos dois gêneros. Apresentamos uma mensagem de texto enviada por celular que ilustra essa afirmação: "Geff o meu celular está bloqueado estou aqui na casa de minha irmã chego em casa depois das 10hs. Beijos. Rô".
Outros aspectos relevantes na organização textual do gênero analisado aqui são, em alguns casos, a falta de pontuação e a ortografia diferenciada, com presença de abreviações, supressões de letras no meio e no final das palavras, bem como o uso de letras que representam palavras inteiras ou sílabas ("c" por "se"; "d' por "de"; "q" por "que", etc.). Por exemplo:
"Ferd to aqui na igreja c/ a lisia agente vai chegar tard não c preocup."
"t adoro sabia? D verdad! t admiro e t considero pa kct! otimo dia pa ti! Bjinhos."
"bm dia! t amo!"
"tô cum xaudade. tenha um dia abençoado. t amo."
Observando o conteúdo e a ortografia das mensagens, percebe-se grande aproximação entre oralidade e escrita. As marcas da oralidade aparecem em expressões como "tô" (estou), "dodói" (doente), "xaudade" (saudade), "xerim" (cheirinho), "tava" (estava), "pa" (para), "cum" (com), "mekitá?" (como é que está?), o que denota intimidade e conhecimento do código utilizado por parte dos interlocutores. Há ainda marcas que demonstram sentimentos, como "rsrs" (risos), "haushaushausha", "hahaha", "kkkkkkkkkk" (gargalhadas) e "grgrgrgrrrr" (raiva), entre outros.
Constata-se ainda a presença de semioses diversas em mensagens via celular, integrando signos verbais, imagens, sons e animações (imagens em movimento). No caso específico da mensagem de texto, é mais comum o uso de símbolos e caracteres de texto para formar ícones, os chamados emoticons, que tornam as mensagens mais vivas, mais convincentes, mais interessantes. Alguns exemplos de emoticons utilizados nas mensagens de texto são os seguintes:
:-) sorrindo
:-( triste
>:-( chateado
:-* beijando
:-O surpresa
:-() gritando
:-@ confuso
:-{ o quê?
:D gargalhando
(_)3 caneca
\_/P xícara
+:-) médico
:-B dentuça
Quanto às seqüências textuais, o gênero mensagem via celular, na variante mensagem de texto, apresenta seqüências expositivas, narrativas, dialogais (conversacionais), injuntivas ou descritivas, predominando sempre uma delas conforme a temática dos textos. Pode-se, por exemplo, observar uma tímida seqüência injuntiva nas mensagens a seguir:
"@>--- receba esta rosa como sinal do meu amor e da minha fidelidade.
Te amo!"
"Ajeite o almoço. Estou chegando. Beijos."
A seqüência descritiva apresenta uma estrutura simples, com verbos estáticos no presente ou no imperfeito, como observamos claramente em outro exemplo: "ontem vc estava bela c/ seus cabelos negros, aquela calça jeans e um top pretinho.bjos". E temos também um exemplo de breve seqüência narrativa: "ontem qdo Elen chegou em casa percebeu q tinha deixado a porta dos fundos aberta kkkkkkk".
A prevalência da seqüência expositiva que, segundo Werlich (apud Marcuschi, 2002), deve possuir uma base textual em que aparece sujeito, predicado (no presente) e complemento com um grupo nominal pode ser ilustrada por outro exemplo: "uma parte do meu coração é vc". Observamos a seguir um exemplo de seqüência conversacional que se caracteriza por ser realizada por mais de um interlocutor, acontecendo a interação entre os parceiros legítimos. Adam (apud Bonini, 2005) chama a seqüência de dialogal, caracterizando-a de transacional, devido à predominância do padrão pergunta/resposta:
L1.: "Vens mesmo hj? Deu td certo?"
L2.: "Quinta pela manha."
Estatuto de parceiros legítimos
É essencial considerar o estatuto de parceiros legítimos (locutor/interlocutor) como outro determinante na caracterização do gênero aqui analisado. Optamos por ilustrar mensagens com interlocutores conhecidos entre si, com certo grau de intimidade. Entretanto, questionamos qual o papel dos parceiros legítimos (locutor/interlocutor) mediante o envio e a recepção das mensagens, papel este que dependerá da finalidade da mensagem, do grau de envolvimento dos parceiros e da importância do conteúdo da mensagem. A posição de locutor, como em qualquer ato comunicativo de interação, passa a ser de interlocutor, e vice-versa, principalmente quando a mensagem de texto requer resposta.
Suporte material
Outro aspecto relevante de caracterização do gênero mensagem via celular é o suporte material desse gênero. Sabe-se que determinados gêneros textuais não dependem somente de seus aspectos formais (estruturais ou lingüísticos). Em muitos casos, o que determina o gênero é o suporte ou ambiente em que se apresentam os textos. (Marcuschi, 2002). Quando se trata de gêneros textuais virtuais, como é o caso das mensagens via celular, o suporte material é fundamentalmente importante. Como já foi dito, esse gênero dialoga com o gênero bilhete, devido à semelhança entre suas organizações textuais, mas o que marca a diferença é o suporte.
Imaginemos um mesmo texto escrito em um pedaço de papel afixado em um lugar a fim de ser lido por um interlocutor específico, depois digitado e enviado ao mesmo interlocutor por meio do celular. Embora possamos dizer que é o mesmo texto nas duas situações, não podemos dizer que têm o mesmo gênero, dado o suporte que é diferente. Nesse sentido, ainda que se tenha semelhante organização textual e até os mesmos interlocutores, o que os diferencia é o veículo por meio do qual são emitidos. Até mesmo no que concerne à organização lingüística dos dois gêneros há diferenças marcantes, pois dificilmente encontramos palavras suprimidas ou abreviadas no bilhete, o que é bastante corriqueiro nas mensagens de texto via celular.
Ainda que se considere a expressividade do suporte material e do estatuto de parceiros legítimos no gênero mensagem via celular, procuramos focalizar a organização textual, devido a determinadas particularidades estruturais e lingüísticas das mensagens, à sua aproximação ao gênero bilhete e ao hibridismo entre oralidade e escrita.
Considerações finais
A análise feita não se encerra nos pontos considerados neste artigo. Ainda podemos atentar para as relações interpessoais no domínio da tecnologia da comunicação, posto que o gênero mensagem via celular só é possível em função da existência de aparelhos de telefonia móvel.
Destacamos algumas questões decorrentes do estudo produzido acerca desse gênero. O estatuto dos parceiros legítimos não se fecha em interlocutores conhecidos entre si, posto que há as mensagens enviadas por operadoras de telefonia móvel a seus usuários, com conteúdos relacionados a créditos, conta telefônica, promoções, entre outros. No caso do informe sobre promoções da operadora e benefícios ao usuário, podemos dizer que há intercalação com o gênero peça publicitária, mas isso é objeto para estudos futuros.
Em suma, a análise sobre o gênero mensagem via celular precisa ser aprofundada, dada sua importância para o conhecimento na área da comunicação interpessoal, que evolui consideravelmente graças às descobertas no campo tecnológico.
Gabrielle Damasceno Ramos é professora de língua portuguesa da rede estadual de ensino, especialista em docência superior e aluna do curso de pós-graduação em Gêneros do Discurso e Ensino de Língua Portuguesa na Ulbra-Santarém-Pa.
gabidramos@yahoo.com.br
Lucenilza Luana Silva Batista é professora substituta da Universidade Federal do Pará e aluna do curso de pós-graduação em Gêneros do Discurso e Ensino de Língua Portuguesa na Ulbra-Santarém-Pa.
luanaufpa@yahoo.com.br
REFERÊNCIAS
BAKHTIN, M. Estética da criação verbal. 2.ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
BONINI, A. A noção de seqüência textual na análise pragmático-texual de Jean-Michel Adam. In: MEURER, J.L.; BONINI, A.; MOTTA-ROTH, D. (orgs.). Gêneros: teorias, métodos, debates. São Paulo: Parábola Editorial, 2005.
HORD, J. Como funciona o SMS. Disponível em: . Acesso em: 17 jul. 2007.
MACHADO, A.R.; BEZERRA, M.A. Gêneros textuais e ensino. Rio de Janeiro: Editora Lucerna, 2002.
MAINGUENEAU, D. Análise de textos da comunicação. São Paulo: Cortez, 2004.
MARCUSCHI, L.A. Gêneros textuais: definição e funcionalidade. In: DIONISIO, A.P., MACHADO, A.R.; BEZERRA, M.A. (org.). Gêneros textuais e ensino. Rio de Janeiro: Editora Lucerna, 2002.
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