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Aprender a amar a terra: educação para um mundo sustentável
Eloiza Schumacher Corrêa
As mediações pedagógicas são fundamentais se quisermos constribuir efetivamente para amenizar ou reverter as diversas ameaças ambientais que pairam no ar
Todos falam sobre os problemas ambientais, ora envolvendo as mudanças climáticas, o aquecimento global e suas conseqüências catastróficas, ora abordando o perigo de mais uma espécie com risco de desaparecer, ora expressando o medo frente a um futuro sem água, ora se indignando com a imensa quantidade de lixo produzida por nós. Nosso discurso a cada dia é amplificado e nutrido pela mídia. Os jornais, a televisão, a internet e outros meios comunicativos noticiam constantemente e chamam a atenção para a gravidade da situação. Na mesma direção, são lançados novos estudos, filmes, pesquisas e discursos, de modo que cada um de nós tem condições de saber que a maneira como os seres humanos se relacionam hoje com o planeta terra é insustentável.
Até pelo menos duas décadas atrás, a abordagem desse assunto na escola acontecia de forma esporádica e tímida. Às vezes, havia um atento professor de ciências ou de biologia que se dispunha e ousava alertar seus alunos para a questão; outras vezes, a partir das comemorações de 5 de junho (Dia Mundial do Meio Ambiente), desencadeavam-se algumas reflexões; outras vezes ainda, alguma notícia da mídia virava pauta de sala, ou a ação intuitiva de algum educador voltava-se para a discussão do problema. Atualmente, a situação na escola é diferente. A discussão acerca da problemática ambiental chegou com força às salas de aula. Não se trata mais da vontade de um ou de outro professor em trabalhar o assunto. Aqui no Brasil, a educação ambiental não só é um dos temas transversais propostos pelos Parâmetros Curriculares Nacionais, como também está prevista na Lei nº 9.795/99. Portanto, não é possível conceber hoje propostas pedagógicas que deixem de fora tal questão.
Dessa maneira, as escolas vêm incorporando discursos, desenvolvendo experiências e encarando o desafio de construir ações coerentes e duradouras para combater esse problema que afeta a todos. Não é raro encontrarmos projetos pedagógicos que envolvam separação de lixo, reciclagem de papel, cultivo de hortas, organização de composteiras, brinquedos construídos com lixo reciclável, campanhas para economia de água e luz. Além disso, atividades que envolvem saídas de estudo para reservas ecológicas, observações e constatações sobre o efeito dos materiais deixados no ambiente, pesquisas sobre animais em extinção e discussões sobre a camada de ozônio são constantes e contribuem para o aprofundamento no estudo das causas dos problemas ambientais (o que é fundamental, pois temos mais elementos para combater essas causas quando as conhecemos).
Orgulhamo-nos de nossas crianças e de nossos adolescentes, que parecem levantar bandeiras, tomando atitudes coerentes e cobrando essas mesmas atitudes dos adultos com os quais convivem. Ficamos encantados, por exemplo, quando o pequeno de 4 anos fala para o pai não demorar no banho, quando a menina de 9 anos procura um lugar adequado para depositar seu lixo, quando o adolescente desliga o chuveiro ao se ensaboar no banho. Tudo isso nos convence de que as mediações pedagógicas são fundamentais se quisermos contribuir efetivamente para amenizar ou reverter as diversas ameaças ambientais que pairam no ar.
Apesar disso, observamos que, muitas vezes, essas mesmas crianças e esses adolescentes parecem eternamente insatisfeitos com o que têm, cansando seus pais com intermináveis pedidos de compras; invadem os shoppings e consomem muito mais do que precisam; seus objetos de desejo vêm, invariavelmente, envoltos em embalagens desnecessárias; não trocam passeios ao ar livre por suas preciosas e longas horas de computador; deixam de conversar com alguém porque estão plugados em seus ipods; trocam seus celulares por modelos cada vez mais sofisticados em um espaço de tempo demasiado curto; não hesitam em dispensar alimentos naturais em troca de artificiais (superembalados); preferem tomar banho de piscina a tomar banho de mar, entre tantos outros exemplos. Nessas situações, é fácil observar que todo aquele discurso, politicamente correto, fica adormecido. E é mais fácil ainda constatar que a escola não é o único lugar onde crianças e adolescentes aprendem a se relacionar com a natureza.
Sabemos que boa parte daquilo que aprendem sobre como interagir com o meio ambiente pauta-se na convivência com os adultos, ou seja, os repertórios de ação são extraídos dos modelos de interações vivenciadas. Outra boa parte é aprendida por meio das referências oferecidas pelas mídias (que, por sinal, mostram-se muito mais competentes quanto o assunto é atingir o consumidor infanto-juvenil do que quando o assunto é divulgar a necessidade de proteção ambiental!). Sendo assim, frente ao poder avassalador das mídias no sentido de fazer emergir desejos incessantes de comprar, à educação familiar e às demais influências a que estão expostos nossos alunos, poderíamos nos deixar levar pelo desânimo e pela certeza de que temos pouco a fazer na escola.
Entretanto, como seres humanos, penso que precisamos sempre buscar saídas para nossos enfrentamentos. Se, por um lado, sabemos que não podemos mudar o mundo através da educação, por outro, também sabemos que certamente podemos fazer com que as pessoas que convivem conosco numa relação educativa experimentem outras possibilidades de interação. E é exatamente nesse aspecto que se centra o propósito deste artigo: discutir a criação de situações de aprendizagem para que nossos alunos experimentem outras formas de ser e agir na convivência com a natureza.
Muitos autores, como Morin (2000,2001), Nicolescu (2001), Maturana (2005) e De La Torre (2005), têm alertado quanto ao fato de que educar (formar pessoas) está muito além de ensinar (transmitir saberes), admitindo a presença e a força das emoções como fundamentais em qualquer processo educativo e apontando para a necessidade de reinventar as relações na escola (se desejarmos contribuir para a construção de um mundo melhor). Nesse sentido, pode ser bem interessante se, nas ações de educação ambiental, forem incluídas experiências que envolvem o sentir. Então, muito mais do que introduzir conteúdos e informações (que atingem o aspecto cognitivo), é preciso estruturar trabalhos que promovam uma aproximação sensível e verdadeira com a natureza. Práticas que comovam e afetem os alunos, ou seja, práticas que atinjam o caráter e as emoções.
Preparar visitas a áreas naturais, organizar caminhadas, andar descalço na mata, oportunizar contatos com a terra (onde se possa ouvir os sons, sentir os cheiros, explorar texturas), propor contemplações (onde se fique fascinado com a beleza e a complexidade dos ambientes), entre outros exemplos, poderão ser experiências particularmente ricas. Contudo, isso só acontecerá se o educador planejar suas ações para que, antes de qualquer informação, consiga provocar a surpresa, o entusiasmo, o encantamento, que possibilitam a emergência dos sentimentos mais profundos em cada vivência (Mendonça, 2005).
Na mesma direção, podemos destacar experiências que envolvam celebrações e ritualizações de eventos e de elementos naturais, tal como faziam − e ainda fazem − as comunidades primitivas e indígenas: danças circulares, recriação de rituais, cantos, etc. Ao introduzir os alunos nessas práticas, estamos contribuindo para que desenvolvam novas maneiras de sentir a natureza para que aprendam a adorá-la, a respeitá-la, a ser gratos a ela. Estamos contribuindo para que experimentem modos de conviver com o meio ambiente que talvez ainda não conheçam. Experiências como estas que foram citadas levam-nos a pensar que a educação ambiental não deixa de ser uma educação afetiva que tem, como intuito principal, recriar as relações com a natureza. Por isso, talvez seja uma boa escolha refletir sob essa ótica!
Eloiza Schumacher Corrêa é pedagoga, assistente social, especialista em alfabetização e educação sexual, consultora de educação em redes de ensino pública e privada nas áreas de educação infantil e ensino fundamental e assessora pedagógica da Escola Autonomia, de Florianópolis (SC).
eloiza.c@superig.com.br
REFERÊNCIAS
MATURANA, H. Emoções e linguagem na educação e na política. Belo Horizonte: UFMG, 1998.
MENDONÇA, R. Conservar e criar: natureza, cultura e complexidade. São Paulo: Editora Senac, 2005.
MORAES, M.C.; LA TORRE, S. Sentipensar: fundamentos e estratégias para reencantar a educação. Petrópolis, RJ: Vozes, 2004.
MORIN, E. Os sete saberes necessários à educação do futuro. São Paulo: Cortez, 2000.
_____. A cabeça bem feita: repensar a reforma, reformar o pensamento. 4.ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001.
NICOLESCU, B. O manifesto da transdisciplinaridade. São Paulo: Triom, 2001.
ROIZMAN, L.G.; FERREIRA, E. Jornada de amor à Terra. São Paulo: Palas Athena, 2006.
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