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Comunidades virtuais de aprendizagem: espaço de sociabilidades na modalidade educacional a distância
Jucimara Roesler
As comunidades virtuais representam a possibilidade de as pessoas, interagindo, aprenderem umas com as outras em um projeto coletivo
A conceituação de espaço tem sido construída a partir de contribuições produzidas no âmbito da filosofia e das demais áreas do conhecimento. A discussão sobre as diversas proposições correlacionadas ao tema tem recebido determinadas representações, à mercê de como foi concebido e estruturado tal conceito pelo pensamento ocidental. Para Manuel Castells (1999), em física, o espaço não pode ser definido fora da dinâmica da matéria e, em teoria social, o espaço é referência para práticas sociais. Espaço é a expressão da sociedade, a qual está passando por transformações estruturais; portanto, novas formas e processos espaciais estão surgindo atualmente, implicando análises da nova lógica que fundamenta tais formas e processos.
Castells (1999) analisa o tempo e o espaço sob a égide das tecnologias de informação e comunicação. Para ele, há um processo de transformação histórica não vivenciada antes pela humanidade. O desenvolvimento da comunicação eletrônica e dos sistemas de informação oportuniza uma dissociação entre a proximidade espacial e o desempenho de funções rotineiras das práticas sociais e de produção. Essas tendências afetam sobremaneira a organização das cidades, do tempo e do espaço. O autor afirma que a atual composição social, denominada sociedade do conhecimento, organizada em rede e formada por fluxos, ocasiona o surgimento da cidade informacional, que não é uma forma, mas sim um processo estruturado pelo espaço de fluxos. Este é constituído por uma forma material de processos e funções e pela combinação de camadas de suportes materiais. A primeira camada é composta pelos circuitos de impulsos eletrônicos (microeletrônica, telecomunicações, processamento computacional, entre outros); a segunda camada é constituída por seus nós (centros de funções estratégicas e de comunicações), no qual as redes eletrônicas que norteiam o espaço de fluxos não apresentam uma localização geográfica definida, mas possuem uma dada estrutura lógica que permite a conexão com outros lugares; a terceira camada refere-se à organização espacial das elites gerenciais dominantes, nesse caso, as elites empresarial tecnocrática e financeira que ocupam a liderança nessa sociedade.
Para Virilio (1993), o desenvolvimento dos transportes, dos meios de comunicação e de telecomunicações originou uma nova arquitetura material, geográfica e temporal, o que ele denomina de espaço construído. O ciberespaço apresenta-se, então, como um espaço no qual mensagens podem ser transmitidas, de qualquer localidade física para qualquer outro lugar, sem perda das características sociais, culturais, educacionais ou econômicas. O território e a cidade não são organizados pelo sistema cadastral de quarteirões, bairros, centro/periferia, mas pela organização temporal e espacial dada pelo usuário do ciberespaço. Dessa forma, a programação do tempo não se dá mais em função das férias, dos feriados ou da interrupção religiosa; a sua organização agora está estreitamente ligada ao dia eletrônico, pois alcançar distâncias geográficas sem o deslocamento físico do corpo é possível graças à dinâmica informacional e eletrônica.
Pensar o espaço remete-nos a uma análise do espaço urbano. Para Lefebvre (apud Lemos, 2001), a estrutura do espaço urbano organiza-se na Antigüidade e persiste nas sociedades da Idade Média com a cidade política composta por padres e guerreiros, príncipes, nobres e chefes militares, escribas e administradores. A cidade política tem características de ser fechada, de possuir ordenamento e poder. Com o advento do comércio, a partir do século XIV, na Europa Ocidental, as cidades adquirem função comercial, configurando um novo reordenamento espacial.
Para Rybczynski (apud Lemos, 2001), as cidades originam-se como forma de organização da vida em comum em determinado tempo e espaço. Na Idade Média, os vilarejos eram chamados de burgos e caracterizados como espaço fechado para abrigar seus habitantes. O termo "urbano" é a contraposição do rural e está ligado ao comportamento nas cidades. Lynch (apud Lemos, 2001) propõe três modelos para descrever as cidades: o modelo da cidade cósmica, da cidade prática e da cidade orgânica. O primeiro modelo serve para descrever cidades cujos traçados representam rituais e crenças; o segundo é a cidade criada como máquina de habitar e de comércio; o terceiro considera a cidade como um corpo, formando um todo equilibrado e indivisível, e seus traçados parecem mais naturais do que construídos. Nos séculos XVI e XVII, a invenção dos mapas possibilita uma construção imagética das cidades, originando a visão abstrata de espaço, porém ainda concebido com a estética das representações do poder e das obras de arte. Com a revolução industrial, nos séculos XVIII e XIX, a cidade adquire a arquitetura de praças, ruas e monumentos, ou seja, uma arquitetura planejada.
Para Lemos, as denominadas cibercidades desaparecem como paisagem e originam o cibercidadão, "que clica nos links do ciberespaço, tendo uma relação muito mais intelectual do que corporal com o lugar" (2001, p. 15). Elas se originam em pleno desenvolvimento tecnológico e são constituídas por um espaço eletrônico e pelo trânsito de bits e bytes. As cibercidades possibilitam a simulação do espaço urbano, de uma ampliação nos modos de circulação através da informatização das instituições e virtualização das cidades em cibercidades. Podemos pensar em um espaço de fluxos, e não em um lugar construído fisicamente, onde o tráfego comunicacional possibilita travar relações de negócios, de serviços, de lazer, de educação, entre outros, configurando uma nova forma de vida.
Com o advento do ciberespaço, as fronteiras não são mais físicas e materiais, pois a territorialidade passa a ser simbólica (Palacius, 1995), visto que a noção de limites perde a característica geográfica e passa a vincular-se ao acesso eletrônico, ao que está disponível na rede ou não. Podemos apontar as facilidades de armazenamento, distribuição e captação das informações, da divulgação dos conflitos sociais - a exemplo disso, recentemente, os Estados Unidos foram surpreendidos com a circulação de fotografias de tortura aplicada a presos iraquianos -, porém não podemos esquecer o perigo dos crimes virtuais.
A internet viabiliza o relacionamento entre pessoas fisicamente distantes, a localização geográfica perde importância pela instantaneidadade da mensagem eletrônica, que permite travar relações afetivas, profissionais, religiosas e culturais, ou seja, instauram-se novas práticas sociais, o que Maffesoli chamaria de "socialidade". O novo território é a tela do computador, que permite conhecer o desconhecido, ultrapassar as barreiras impostas pelo território geográfico e criar situações novas, um comportamento on-line baseado na teleação, no teletrabalho, na televisão, na teleeducação, ou seja, não nos encontramos em um lugar, no sentido antropológico, mas flutuamos na presença intermitente do espaço virtual.
Assim, a identidade com o lugar está vinculada às relações sociais travadas no espaço virtual. O navegador do ciberespaço trafega por percursos que o levam a conhecer novos territórios, novas pessoas, novas culturas e a formar tribos estáveis, conforme Maffesoli (2002). O viajante do ciberespaço desloca-se por um território simbólico e o reconhece como um lugar para o desenvolvimento de socialidades, comunicação e cultura. A formação identitária com o espaço é tão forte, que as pessoas têm a sensação de estar diante de um museu, um shopping, um banco ou em um espaço de lazer conversando com outras pessoas.
Segundo as proposições de Castells, Virilio ou Maffesoli, o ciberespaço inaugura e viabiliza novas configurações sociais, nas quais se realiza a cultura, a economia, a educação e as demais práticas sociais através da interação a distância com pessoas ou lugares conhecidos ou não, eliminando, inclusive, problemas impostos pelo espaço urbano ou geográfico. A rede passa a ser um espaço globalmente partilhado, no qual é possível manter vínculos não imaginados antes. As comunidades virtuais originam-se no ciberespaço como um espaço de interações sociais, fluxos informacionais e comunicacionais. As práticas sociais, por sua vez, são possibilitadas por um processo comunicacional baseado na interação a distância e sem a barreira do espaço físico e do tempo cronológico. Um fato novo origina-se a partir da comunicação a distância mediatizada pelo computador. A possibilidade de uma comunicação "de muitos para muitos" ganha vida através da tela do computador, promovendo uma reconfiguração social, cultural e comunicacional.
Rheingold é um dos primeiros autores a utilizar o termo "comunidade virtual" para designar uma comunicação humana mediatizada pelo computador. Para ele, as "comunidades virtuais são os agregados sociais surgidos na rede, quando os intervenientes de um debate o levam por diante em número e sentimento suficientes para formarem teias de relações pessoais no ciberespaço" (1996, p. 18). Há um processo de compartilhamento, pertencimento e empatia no ar, que se mantém pela ação a distância e pela comunicação mediatizada e mediada. Um espaço onde é possível compartilhar emoções e sentimentos seria o que Maffesoli chama de "interacionismo simbólico", um meio de aproximação cultural, já que um "[...] espaço só tem sentido se pode ser vivido com outros, de perto" (1996, p. 262). Se o sentido da existência de uma comunidade virtual é o pertencimento, a interação social e a empatia, essas são determinadas pela ação comunicacional dos sujeitos integrantes desse espaço. Através dos fluxos informacionais, das mensagens compartilhadas, das atividades e das discussões cria-se um vinculo social de determinado grupo baseado na socialidade.
A comunidade virtual é vista como prática social e, portanto, emerge como espaço eminentemente comunicacional. A noção de comunicação proposta por Maffesoli é a de compartilhamento, pois, para ele, "a sociedade é formada por um conjunto de relações interativas, feito de afetos, emoções, sensações que constituem, stricto sensu, o corpo social" (1996, p. 73). A comunicação como processo de interação é realimentada pela necessidade de socialização, de estar junto, que tem como objetivo primeiro a participação em conjunto. A individualização é rompida pela interação, pelo sentimento de integração com o outro e de pertencimento como ideal comunitário. A comunhão ganha vida através da empatia. Trata-se de habitar um espaço em que o isolamento do corpo é rompido pela relação de correspondência com o outro, uma característica tribal. As comunidades virtuais representam a possibilidade de as pessoas, interagindo, aprenderem umas com as outras em um projeto coletivo.
Entre as comunidades virtuais, interessa-nos a comunidade virtual de aprendizagem (CVA), que vem sendo utilizada na modalidade de educação a distância como instrumento de entrega dos conteúdos, de comunicação e de interatividade. A CVA apresenta-se como possibilidade de tornar presente uma experiência vivificada pelas ações a distância daqueles que fazem parte de um projeto comum de aprendizagem propiciado pela comunicação e pela interação que os sujeitos desenvolvem nesse espaço.
Na aprendizagem a distância, a separação física existe como característica dessa modalidade de ensino; a mediação e a mediatização do ensino são pressupostos para aproximar os aprendizes da instituição, dos docentes e dos conteúdos de estudo. Nesse caso, as interações são fundamentais para constituir um processo comunicacional que permita compreender o grau de envolvimento de cada um dos agentes do processo de ensino-aprendizagem. Através dos dispositivos comunicacionais e informacionais de uma comunidade virtual de aprendizagem, constrói-se uma relação na qual a interação configura-se como pressuposto para o aprender coletivamente. Ainda no campo comunicacional, a CVA é composta de dispositivos de comunicação síncrona e assíncrona - fóruns, e-mail, chats, entre outros -, que possibilitam a interação, a participação, a opinião, a construção de novos significados. Uma rede de cooperação é oportunizada pelo processo de comunicação bidirecional. Sem dúvida, pode ser um espaço interativo e de construção da sociabilidade, se o desenho pedagógico do curso o permitir, pois esse determina o grau de interação e interatividade de determinada CVA (Sartori, 2005).
O desenho pedagógico de um curso a distância é precedido pela definição do público-alvo, dos objetivos educacionais, da organização curricular, da arquitetura de distribuição dos conteúdos, das mídias que irão proporcionar a interação e o sistema de avaliação da aprendizagem (Sartori e Roesler, 2004). A elaboração do desenho pedagógico tem como premissa não só uma aprendizagem autônoma, na qual o aluno é agente do processo, mas também a definição da mídia utilizada como instrumento de entrega do conteúdo e de comunicação, que, por conseqüência, permitirá um grau maior ou menor de interatividade aos agentes da comunidade. Essas decisões vinculam-se aos objetivos do curso e ao design dos conteúdos, com a intenção de proporcionar uma aprendizagem com significação, interpretação e interatividade no espaço definido para esse fim. Portanto, uma arquitetura de distribuição dos conteúdos que tenha como pressuposto a produção coletiva de textos, a participação conjunta e a intervenção nas mensagens educativas apresenta elementos que permitem o desenvolvimento de novas práticas pedagógicas baseadas na interatividade.
Em uma comunidade virtual de aprendizagem, é conveniente atentar-se às questões culturais. Moacir Gadotti (2000) alerta-nos sobre a necessidade de a instituição educacional proporcionar ao aluno passar da cultura primeira à cultura elaborada. Essa questão é ainda mais preocupante na modalidade a distância, uma vez que lida com alunos provenientes de diferentes regiões ou países, com substratos culturais diferenciados, e tem de interagir com um estilo de linguagem, com estratégias pedagógicas, com um design gráfico, com atividades de cunho individual ou coletivo comum ao grupo. São questões que precisam ser consideradas no processo de construção da comunidade de aprendizagem para atingir os objetivos educacionais definidos pelo curso.
A partir das reflexões apontadas, identificam-se como características fundamentais de uma CVA:
como meio, oportuniza a interação através de dispositivos comunicacionais síncronos e assíncronos;
como espaço construído para a aprendizagem, necessita de certas configurações e estratégias que proporcionem sentimento de pertencimento, sociabilidade e cultura;
como mídia, possibilita o desenvolvimento de novas práticas pedagógicas, na medida em que proporciona emissão e recepção de conteúdos, assim como construção coletiva de significados.
Se, por um lado, com o desenvolvimento tecnológico, o conceito de espaço sofreu modificações, interferindo sobremaneira na vida do cidadão, por outro lado, a aprendizagem a distância depara-se com a necessidade de novas configurações educacionais que interferem diretamente nas práticas pedagógicas. A comunidade virtual passa a ser, então, um espaço construído para a aprendizagem.
Jucimara Roesler é mestre em educação, doutoranda em Comunicação Social, diretora adjunta do campus virtual da Universidade do Sul de Santa Catarina (Unisul), coordenadora do curso de pós-graduação a distância em Metodologia da EaD e professora da disciplina de Tecnologias Aplicadas à Educação.
E-mail: jucimara@unisul.br
REFERÊNCIAS
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